Eu olho os cantos, essa é minha estratégia para não me lembrar das coisas ainda vivas em mim. É estranho a sensação de retorno sem parecer que Alice ali não estava. Tentei evitar as pessoas, pois a maioria me perguntava por ela. Acho que ninguém se imagina eu sem Alice.
Resolvi sentar em outro banco, de preferência o que eu e Alice não sentávamos juntas. E hoje não quero pensar nos nossos assuntos, nem nos sonhos e nem em risadas.
Parece-me que não sou a mesma. Às vezes olho a calada imagem no espelho. Vejo o fundo de alguma imagem. De fato, sou vazia sentada no refeitório. Nunca reparei nas rachaduras, e nem nas conversas alheias, nem no modo como as pessoas andam e pisam os pés. Eram tantas os barulhos, o tilintar dos pratos, os gritinhos e murmúrios.
Alice me levava uma parte que já não tinha. E eu só sabia afundar em algum lago de areia movediça de dentro de mim. Eu era alguma lama dessas da vida. E nada seria mais igual: os meninos que Alice poderia gostar quando passarem perto, onde depositar os comentários? Sentar em outros lugares e conversas com os outros. Eu até saberia o que Alice falaria em alguns momentos. Ela permanecia em mim e jamais poderia partir tão cedo.
Porão no interior da casa. Um dia de preparativos para mudanças.
Resolvi descer no porão. Era o ultimo dia de arrumar as coisas, no dia seguinte o caminhão iria pegar as caixas. É claro, não me lembro de exatamente como cheguei perto daquelas coisinhas. Algum me transportou de mim despertando toda graça de mãe que me contornou num deslumbre.
Voltei ao tempo, aquele tempo único cheio de encantos. Quando vi as meias de Arthur no tempo de bebê e as luvinhas. Era como se tocasse nas suas mãozinhas que agarravam minhas mãos. Queria novamente niná-lo, senti-lo em meu peito seguro. E por deus, como amei aquela coisinha miúda.
É como se fosse num instante, pude fechar os olhos e sentir meu filhinho rindo para mim. O meu primeiro riso, nenhum anjo pudesse pagar aquela alegria. A paz mais forte que as portas do céu. A primeira palavra era como se fosse um coral de anjos em meu ouvido e toda a brisa do mar tinha de se calar. Só queria vê-lo sorrir, mesmo que pagasse qualquer preço.
Peguei em suas roupinhas e pude senti-las latejar contra uma pele fria derrotada contra o tempo. A fragilidade do toque pelas rugas. O cheiro de bebê ainda fresco vindo à alma e fazendo a rosar. Passei a mão na poeira que escondia os brinquedos e pude encontrar o silêncio. O silêncio que era a oração mais suprema da natureza, mas que naquele instante era a canção de não encontrar.
Arthur hoje pouco se lembra de como segurou minha mão com medo de dormir. Pouco se recordas das estórias que ele mergulhou ao som de minha voz e talvez nem se lembre de como escrevia cartinhas de amor para mim. Uma caligrafia tremula e garranchada, mas que me tocava mais que o poema de amor mais poético já escrito no mundo.
Pai e filho. Um conversa num dia de pesca. Tarde quente.
- Pai, como era mamãe?
-A meu filho, era uma mulher muito determinada. Sei lá, não tenho muito o que dizer sobre ela. Era de personalidade tão forte. Ela amava você. E...
Um silêncio cortou não só a garganta. Era um mundo que berrava as entranhas do silêncio. O filho embora pequeno sabia que aquelas náuseas subia junto da borda do estomago e cortava o peito com navalha. Eram uma espécie de bolhas. Foi quando juntou as palavras que eram bem poucas.
- pai, Porque sinto falta de alguém que nunca vi?
Mais uma canção do exilio.
Me dá um gastura no peito. E eu fico sem jeito olhando a distância da nossa distância. Aruanda fica tão longe e o sinhô da casa grande fez um tar de senzala. Gente de fé rala. Aruanda fica no peito e vou vortar pra lá. Ai me lembro de mãe preta. Ai ela tar me esperando no deitar do sonho só pra gente se esquecer de acordar.
Carminhando nas ruas de Ruanda. Mãe me nina feito criança pra aruanda vou vortar. Essa terra já nem canta. Esse povo só cansa e faz o peito chorar. Aruanda fica no sonho e eu um dia vorto pra lá. Posso ovir a canção de mãe preta para dormir. Atravesso o longe e lá distante pra aruanda, vou vortar.
Um trem das onze e um casal feliz.
Havia um casal. Perdidos em uma rua lá na infância. Uma rua chamada Cali. Conheceram-se num dia de verão e se prometeram como Julieta e Romeu. A rua como se fosse Verona onde até hoje atrai tantos apaixonados. E ela filha única, tinha que partir logo.
Um dia, o rapaz retorna a rua sem saber de fim. Olha com atenção cientista cada detalhe que foi cenário de um amor ainda desconhecido. Ali onde as crianças costumavam aperta as campainhas dos vizinhos e as paredes marcadas pelas traves de gol. A arvore pichada por nomes, e não é que ali ainda grava um coração sobre as inicias de um “Para sempre”.
Os dois sabiam que o amor é para poucos e sentiram a ira dos deuses. Os deuses que sentem inveja daqueles mortais que amam de verdade. Num estação qualquer de Valença, tinha que decorar o ultimo olhar, tinham que sentir a pior falta que é a de estar perto e não poder possuir. Apesar de tudo que sentirem ser tão intenso e forte e mesmo sabendo que suas almas eram tão completas e o mundo era inteiro juntos.
Os dois cruzaram o ultimo encontro de olhar. E sentiram uma lágrima calar mais que a morte junto de uma derradeira chuva de março.
No céu da cidade do interior a música desenha uma canção que só ela pode ouvir.
Parati. Retorno à casa da avó.
Acho que aprendi o significado da palavra amor e tudo pela minha vó. Aprendi a amar e deixa ir. Amar sem querer possuir. Amar de olhar. Amar por ser único no mundo. Amar sem apego. Minha vó não queira se torna alma penada e dizia “menina, vê se aprende com a natureza a correr solta. Nada é nosso, nem nosso corpo. A natureza leva as coisas como folha no ar.”
Fico olhando o quintal. Lembrando de quanto vó gostava quando eu tocava a viola e ainda sinto vó catando meus cabelo cantarolando aquelas músicas vivas em mim. O seu jeito peculiar de coser e eu sempre no meu mundinho. Vó sabia me entender, pois sempre era muito estranha na roda de meninas. Vó não precisava me dizer nada, ela sabe demostrar pela forma de brilhar os olhos e maneira de me dizer sua sabedoria.
Quanto à tarde vinha, sentia o cheiro de café e o barulho das panelas de vó. Sua voz me chamando para tomar um lanche. E vó tinha que partir. Ela me deu sua vida e eu...Eu aprendi a deixar vó ir. Lá onde deve estar. Ela olha para mim e sei que deve fazer seu café rindo. Só sinto o cheiro de alecrim.
Um vento e um litoral: ser um horizonte em nós.
Eu queria esfriar a mente naquela tarde. Sentir o vento cortar o rosto e as gotas de agua salgada das ondas que batiam as pedras. Era como uma trilha-sonora que toca em minha mente ao som de heavy metal.
Por um momento, eu era o horizonte disperso de mim e só queria esquece-lo . A única coisa que pediria a deus era o esquecimento total da sua imagem em mim. Assim como um ato de apagar as velas. Como um vento que corta e leva tudo embora.
Num horizonte disperso de mim, senti falta de nossos sonhos. Ainda éramos jovens sonhadores naquela época remota, nem sequer se dávamos o trabalho de ter medo do futuro. Só queríamos olhar o mundo sobre uma direção. Juntos éramos capazes de ter o mundo sobre nossas mãos. Hoje me faltam os ares e toda a forma de um éter e não a equilíbrio sobre nossos elementos. Apenas tenho em minha frente um mar revoltado bradando suas espumas. E que o mar sempre sonhou em ter um grande amor. Sempre jogam flores neles e sempre alguém perde um amor dentro dele. Se pode achar tudo dentro de um mar até o rio. Eu queria ser mar. Eu queria um dia entender a solidão do mar: como ficar ali durante tanto anos?
Cadê quem sou? Cadê os planos? Onde estar você agora além de aqui dentro de mim? Será quem ainda pensa em mim como penso em ti agora? Será que um dia sem mim, você irá olhar o mar e lembrará meus sonhos? O tempo errou como sempre erra. Nosso percurso foi seguir as ondas de um mar que a vida nos fez. E você permanece em mim sempre como um vento que vem distante. Queria que você pudesse me ouvir. Olha essa é a nossa canção! Esse mar sempre diz que devemos continuar, para se entregar? Quanta bobagem cometemos... Irei embora como um vento e serei finalmente aquela linha do horizonte que você tanto amava.
Já amanhece o dia, não a ninguém nessa rua, nem carros e nem movimentos. Tímido o sol se levanta. E fico pensando o que as pessoas fazem no Japão nessa hora que estou olhando o horizonte. Um outro lado do mundo. O inverso. Avesso. Assim como você foi. Elas devem sonhar deitada na cama mergulhada no desconhecido delas. Esse é nosso plano, vou sonhar. Tudo ficara bem. Eu serei o mar.
Olha entre as pedras o que achei... Cavalos- marinhos!
Uma carta encontrada no cemitério de Tóquio.
Tóquio, 7 de Março de 1934.
Querido Professor Eizaburo,
Hoje venho em sua lápide deixar essa carta. O senhor não só influenciou meu modo de enxergar o mundo, como mudou muito às coisas por aqui. Seu cão Hachiko deve ter te encontrado hoje, depois de onze anos e quatro meses de espera na estação de Shibuya.
Todos comentam aqui essa estória tão bonita dizem que o senhor saía todos os dias para nos dar aula, e o Hachiko lhe seguia e te esperava chegar à estação. E sei que em 1925, o senhor não voltou mais. Mas o Hachiko ficou lá todos os dias te esperando e eu cuidei dele. Tenho certeza que ele está com o senhor, e estou feliz. Todos os professores deviam nos ensinar a construir afetos como o senhor nos ensinou.
Saudações de seu aluno.
São fragmentos. É um parto que nos ocorre. Sou cada parte de mim. Parto-me. O jeito de abrir as gavetas e encontrar as roupinhas. O jeito de olhar as fotos. O modo de não olhar mas para trás. Sou a maneira de tocar os brinquedos. A forma de vê o horizonte e de passar os dedos nas primeiras caligrafias. Sou aquele barco que parte no cais. Sou um sentinela sobre a janela. Sou um dor que lateja. A maneira de arrumar um quarto do filho que já morreu. Sou um cão que corre contra um carro. Sou o vago pátio. Sou o vagão do trem. Sou o pedaço de rua. Uma metade. O interior de meu mundo e assim sou habitado.
Então, esses personagens de uma estória que se repete os dias irão erguer os braços numa chuva qualquer e lá no fundo da cada um se paga os rastros dos sinais de um pátio, o vazio de algum lugar, um porão abandonado, sobre o sol de um dia de pesca, num horizonte, numa terra estrangeira, numa praia de um apego sem fim, às areias sobre pegadas. O laranja de uma tarde se anuncia e se mistura com um tom de veludo azul de uma noite. E eles continuam imóveis, parados e já não são os mesmos. De todo o resto o vento levou na estrada, somente um pedaço bem miudinho ficou. Esse de tão pequeno não se pode vê.


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