Bonnes não era de muitos amigos e não costumava a fazer apresentações. Talvez não houvesse encanto no oficio. Certo dia, esse que marcou cada habitante de Circolândia, o palhaço diferente fugiu de nossas terras sem mais retorno.
Em uma terra distante era carnaval e todos já apresentavam suas mascaras sobre o rosto. Enquanto a banda levantava o bloco com as marchinhas. A única obrigação era a felicidade. As serpentinas iam ao céu ainda nublado de tantas águas que se vinha sobre o verão. Eram urros e vozes embriagadas com a alegria. E uma tal Mocinha já sentia as dores de um amor, lá no meio, espremida e embargada no formigueiro de euforia.
Bonnes caminhava pelas ruas e fugia da alegria. Já estava cansado de qualquer barulho, e por ser palhaço, ele jamais poderia chorar. Tinha curiosidade de saber o que seria oposto dos sentimentos, queria um dia derramar lágrimas, mas não conseguia. Mas Bonnes tinha um plano em mente. Aquela era a festa da alegria e logo chegaria ao fim, foi então que pensou em fazer seu espetáculo. O plano não podia falhar.
Enquanto a banda passava e chamava os que estavam à toa na vida. O estandarte empinado como um pavão exibia seu excesso de escândalo sobre a multidão. As cores não mais se escondiam, elas podiam ser todas em uma. E as senhoras já não tinham cansaço, nenhum homem se lembrara de contas mensais, todos os amores foram perdidos e assim abria-se a avenida. O palhaço espreitava pelos cantos a hora de começar o espetáculo.
Era o fim. Quarta-feira de cinzas. Só restavam fantasias rasgadas ao chão. O bumbo e a bateria já não faziam barulho e nem se quer havia tumulto. Só havia uma menina. A mocinha desiludida de amor com o vestido florido rasgado. Um vestido polido, cetim, frágil assim como era as vias de cada forma de sonhar. Lá pelos cantos havia um mendigo feito animal a catar os cacarecos que mal podia se achar.
O palhaço se espantou, finalmente aquele lugar era diferente de sua terra. Lá os risos e gargalhadas eram tão constantes. Ali, todas as cores tinham um fim e um prazo a chegar. Era uma alegria feita como o vestido florido para acabara sobre cinzas.
O palhaço ia ao centro de todo resto e começava seu espetáculo. Só a mocinha poderia enxerga suas cores tímidas. Ele punha a mão ao rosto e tentava força lágrimas deixando a mão cair sobre a face, assim só fazia mais elasticidade. Ele nada sabia a não ser esconder e escorregar as mãos no rosto. E nem havia graça e gozação em cada gesto. Poderia vir um guarda para tira-lo? Era um louco? Estava atrapalhando? Só restam trapos aos palhaços que se vestia com o rasgado vestido. E naquela terra não havia como provar seu talento, pois nem sequer um papel moeda o palhaço tinha. Então, ele não poderia perder mais tempo. Tirou do bolço uma flor e foi até a mocinha desiludida de amor. Entregou em suas mãos. E para qualquer espanto de todos os seres dessas terras, uma lágrima brotou do olhar, bem no canto e trouxe um clarão ao coração do palhaço. Ele fez alguém chorar.
A mocinha mal conhecia a vida, mas podia dizer que a dela era aquele encardido vestido. Era qualquer trapo. Era um final de amor. Um menino que a machucou poderia ri em qualquer outro bloco agarrado com qualquer outra. Então, vai que os sonhos são assim? Vestidos acabados e resgados. Findava-se tudo. A bailarina menina tropeçada no próprio rodopio. Uma mulata conquistada pelo vira-lata. Um malandro convertido de suas maldades. Uma pequena cidade sem claridade. Fantasias que voltavam para o barracão. Então uma pequena procissão. E a fé só restou. Nossos pedidos ao céu ainda nem chegou. A vida é esse vestido que você guardará para outro carnaval e nem se lembrará da quarta-feira. E fará dos últimos dias um instante. Um instante de qualquer sonho que não se pode acordar.
E o palhaço? Sei que ele anda por aí e também um coisa tenho certeza: Só houve um dia em que ele foi realmente feliz. O dia em que ele pode encontrar as lágrimas daquela mocinha porque só a lagrima é a liberdade.


A obra O palhaço que fazia chorar de Vinícius Luiz foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada.
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