Ainda lembro o dia que estive em Dogville, seus habitantes não foi tão hospedeiro, não foi e nunca foi. Sim, eu sou superior a todos, posso superar tudo que eles fizeram comigo assim como Cristo perdoou toda a humanidade. Eles realmente não sabem o que fazem.
Eu não queria lembrar, mas disso, sinceramente, Dogville ainda mora em mim. Recordo os olhos de Tom gentis e quase altruístas, confesso, eles por pouco me tocaram. Eu poderia ir embora de Dogville, afinal, nunca tive motivos para andar fugida por ai. E que tive muita misericórdia de todas aquelas crianças que não mal sabiam escrever seus nomes, aquelas mulheres que só haviam provado o gosto falso de seus próprios homens, aqueles homens que não sabiam que existia outra realidade além daquela cidade tão simples. Eu senti que poderia contribuir para a vida daquelas pessoas e da cidade. Tom queria inspiração para seu livro, dei a ele. Não somente a ele, mas a toda cidade.
No começo, todos tinham medo de mim. Ninguém me quis lá, nunca me quiseram. Somente tom, até sua alma foi corrompida. Acho que o pecado estava sobre aquela cidade e toda fúria dos deuses como se fosse um episódio de tragédia grega. Todos tinha que pagar, todos pagaram como se fossem juízes de seu próprio julgamento.Os respeitáveis moradores de Dogville cavaram suas sepulturas de olhos fechados para a realidade, e eu fui capaz de perdoá-los? Creio que não consegui. Vou tentar reviver as tristes lembranças, que preferiria que se queimasse junto das chamas daquela cidade, onde apenas um ser totalmente animal conseguiu enxergar todas aquelas coisas-um cachorro preço em um corrente.
Tudo começou quando Tom pediu esmolas aquela cidade miserável, para que eu pudesse lá ficar como toda relação humana é repleta de interesses pessoais ou não, tive que conquistar meu espaço naquele vilarejo mal curtido e feito. Em troca de ficar naquela cidade tive de fazer pequenas tarefas, os habitantes são amáveis... Claro! Tudo é visto pelos olhos, nossa arruinada criação dessa forma débil que consegue enxergar as coisas ao redor. O mais cego seria Ben Gazzara, ele não admitia sua cegueira, pelo menos sua cegueira era notável, ou contrario do restante do povoado. Eles não me queriam apesar de eu estar sempre presente, me oferecendo em troca se possível, mas eu sabia que seria capaz de perdoá-los. Assim se anuncia a tragédia.
As coisas mudaram no dia da independência, que irônico!!!Parecia que alguma coisa do além anunciava minha dependência, minha situação total de escravidão, de podridão, de animalização. Assim que somos. Os moradores mudaram comigo, exigiram mais. Queriam mais. Pois eu era uma possível fugitiva, o que eles não sabiam é que eu fugia de mim mesma. Mas como se foge de si mesmo? Isso nenhuma filosofia poderia me responder, e nem mesmo poesias mais profundas e nem nenhum texto sagrado. As mulheres invejavam minha beleza, queria que os homens as desejam-se, assim como me desejavam. Elas queriam ter o tom de minha pele, a postura elegante que provinha de minha refinada educação. Os arrogantes são pessoais com complexo de inferioridade, desta forma elas me humilhavam para não se sentirem humilhadas. Seus maridos mal as tocavam, Chuck me violentou. Lembro quando seu desejo sexual prevaleceu em troca de calar-se diante de um possível denuncia as autoridades sobre mim. Não havia paredes em Dogville. Nunca houve. Todos sabiam, mas vigia que existia. Às vezes é mais fácil pintar a realidade do que encará-la. Tentei fugir, fiquei cativa, fui escrava sexual e física. Os habitantes se viram obrigados a me prender como um animal feroz. Esse povo nunca sabe o quer dizer, eles acham que se comunicam. Quanto Tom os questionava, eu sentia que eles mudavam de assunto.
Quando pensei que tive alguém que me amava naquela cidade, quando quase me vi prisioneira de uma paixão. Tom, aquele o qual me entreguei por amor, me entrega feito um objeto descartável. Ele sempre foi covarde, podia ser altruístas até aquele momento, mas nunca admitiu que me amasse para a cidade do pecado. Ele teve que escolher entre eu ou sua Dogville. Tom escolheu Dogville. Ele aceitou tudo calado, todas minhas humilhações, todas as imoralidades. Eu era a estrangeira. Talvez você, leitor, acha que eu fugia de meu marido gângster cruel. Não. Lembra que eu disse que Dogville morava em mim? Ela ainda mora, sempre morou. Sem piedade e sem amor cristão, pedi ao meu pai que fizesse o massacre em toda a cidade. Com minhas próprias mãos assassinei Tom. Eles mereciam, era um final digno a Dogville. Posso ouvir a morte, fria e crua ter que levar as almas daqueles seres indignos e dizendo a si mesma: os seres humanos me assombram.
Querida amiga, não sou Grace, mas acredito que ela mora em algum lugar em mim. Assim como a pequena cidade da história. Resolvi iniciar essa carta com os olhos de Grace, assim se baseia a trama: um circo de humanos. Retratos de pessoas cruéis, masoquistas, egoístas. Somos iguais em desgraça, somos iguais em todos os sentidos. Tentamos separar o que seriamos, entre: o bem e o mal, mas isso não existe. Estamos nos equilibrando todos os dias, numa corda banda onde as circunstâncias, as pessoas e lugares tentam desmascarar o nosso rótulo. Vamos além do bem e do mal, muito mais do que pensamos que somos.
Ali, me vi em Grace. Queria que todos fossem punidos pelo que fez, pois eu me acho superior. Essa carta merece o azedume humano, merece toda a minha escuridão. Todos mereciam ser mutilados, esquartejados e queimados. Vi aqueles bebes gritando, aquelas crianças chorando, aquelas mães pedindo misericórdia por seus filhos. Fiquei com pena.
Senti o meio termo, nem pena e nem revolta. Um estranhamento. Será que eu faria o mesmo? Sim, faria. E você?Eu sei que não há bem e nem mal, só existe um coisa que ultrapassa nossas medidas: o desejo de poder e de querer ser mais.
Em busca de respostas...
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