No telefone. Um final de semana em que era final do campeonato carioca. Flamengo e Vasco.
-hei, rapaz, jura juradinho que não vai me deixar?
- eu acho que não conseguiria isso, mas juro.
- eu tenho medo de te perder.
- Eu tenho medo de não me achar.
Abrir um e-mail com o coração acelerado subindo a boca.
Amor, porque vc foi some assim? Parece q vai me abandonar, às vezes sinto isso. Vc sempre com a cabeça na lua, deveria uma vez atender esse cel maltito ou responder as msg’s. Saudades das nossas noites, sentir suas pernas entre as minhas e de ouvir suas reclamações do mundo.
Vou te vê na terça que vem.
Bjs
AM
On Thu, 2 Feb 2009 12:54:33 -0200, AM wrote
Trabalhador da loja de flores. Paris. Ele, estrangeiro ilegal brasileiro. Ela, francesa. Ele, nem ao menos sabia escrever na sua língua materna, ela por sua vez, erudita aluna de um Liceu de artes.
Fico vendo os casais felizes. Hoje é dia de são Valentim, pessoas compram bombons e lindas flores. Todas as flores que arrumo têm um toque especial, detalhe e atenção. Fico imaginado a cena diferente para cada rosto. Nunca pensei que fosse bom nisso.
Ela sempre vem, compra tulipas amarelas e anda como graça. Fico com vontade de ler por cauda dela, sempre cheia de livros debaixo dos braços. Mas nunca falarei com ela, porque não sei a língua dela.
Todos que vem aqui parece felizes. Só os que vêm de preto que não. Sempre com cara de pensamento. Nunca sei o que falam, o que pensam, às vezes, tenho vontade de falar porque sinto saudades do Brasileiro. Para lembrar como era falar no Brasil. Sinto falta do feijão. Do arroz. Quando chego em casa começo a gritar para vê se ainda existo porque quando pego o metro sinto nada. Ninguém olha para cara de ninguém.
Quando amanhece fico feliz, porque a menina dos livros passa lá. Um dia mais feliz meu foi quando ela olhou para mim como se entendesse tudo. Apenas olhou por mais tempo, sem presa de cliente e pegou o ramo. Virou a esquina e nunca voltou.
O pensamento do amante nas horas sem conseguir dormir.
E nessas horas que penso em você. E sei que você tá nem aí para mim. Nessas horas que sinto mais saudades de você. Nessas horas que a gente deseja ter alguém para pensar no travesseiro. Nessas horas crio uma casa perto de praia ou perto da campina dos contos de fada. Nessas horas espero você voltar e te abraço. Nessas horas imagino coisas que queria fazer. E você lá sempre do meu lado, feliz, fazemos poupança do sorriso.
A resposta do amante.
Porque você quer me vê? Está carente né? Pois bem, você diz que me ama, mas darei o sexo barato a você. Ao menos pague o programa. Pague a web cam que eu assisti quando se exibia. Pague as horas que perdi com você. Tem pessoas que não merece que gastemos o tempo. É assim que me sinto, objeto descartável seu.
E você sempre exibindo dizendo que era humilde. Sempre querendo atenção. Começando com o muito, esquecendo que quantidade não é qualidade. O muito que de tão barato acaba sendo pouco. Miseravelmente descartados pelas futilidades do destino. Adeus biscate!
Att.
RR
Date: Sat, 4 Feb 2009 11:43:39 -0800
A última lembrança dos pedaços de alguém. Apenas um alguém sem identidade.
Oi,
Quando você acordar estarei longe, bem distante, e facilitarei para que você nunca saiba meu rastro. Talvez se eu pudesse entraria em sua mente como forasteiro e arrancaria todas as lembranças que me fizeram em sua vida. Uma a uma como arrancar uma pétala da flor quando surge o primeiro amor.
Fiz questão de vender o apê fodido que transamos enlouquecidamente tantas vezes. Nossos suores misturados e o sussurro de não me deixe. É isso que olho. Porque nunca levei a serio teus planos, nunca vi o que vejo nas pessoas e nos filmes com a gente. Jamais poderia continuar ali vivendo na nossa imagem ou com risco de você ir atrás de mim. A gente nunca teve necessidade de dizer as coisas um pro outro, coisas do tipo eu te amo, coisas que pessoas comuns dizem e querem. Talvez não precisávamos, ou quem sabe, somos capazes de sobreviver sem nós mesmos.
Então, juntei forças, e disse a mim que seguiria em frente sem qualquer vestígio seu. Jamais poderia viver vendo você agarrado com outra mulher. Sabe nunca te contei, mas aquele dia que fingi não sentir absolutamente nenhum ciúme quando conversei com você perto de sua mulher. Tive vontade de fugir dali gritando, chorar e perguntar a Deus porque você fez isso comigo. Será que nunca te passou pela cabeça que queria você perto dos meus braços? Que era duro dividir o peso de ter mais idade que você? Que é tão complexo não ter você no meu domínio e olhar sua presença nos braços de outra? Que não poderíamos suportar os conflitos que surgiriam se descobrissem nossa relação amorosa?
Sabe, ontem joguei na cama todas minhas fotos e documentos. Tudo que me diria quem sou, pois precisa saber quem eu era. Precisava entender porque repentinamente sua aparição na minha vida trouxe em mim a perda de quem eu era antigamente. Porque eu fazia tantas coisas que não faria para ter você mais perto? Inutilmente, sabemos que nunca adiantaria essas artimanhas, nem com todo esforço dos metres.
Todas essas perguntas foram minhas amigas e fieis companheiras nesse apê. Elas foram cruéis quando deitava a cabeça na fresta do travesseiro. E sempre foi melancólico ir até sua presença. Você nunca se tocou, nunca ao menos percebeu o quanto era egoísta em querer abraçar o mundo todo e me manter por perto. Meus fragmentos machucados e seu ego cheio por vê um cordeiro fitando os olhos em ti. Era duro carregar tudo isso nos ombros. Quando decidi largar o mundo e deixei o globo rolar por nossos pés a baixo. E você nem ao menos sabe que era um dos eixos preferidos que mantinha essa órbita girando e ainda de pé. Era um dos mundos que tinha na minha mente e eu, pobre de mim, perdido numa dessas tensas florestas, sem saber nenhuma noção de cartografia.
Sempre me perdia nas suas curvas, seus traços misturados ao meu suor, abrir suas calças e te tocar. Olhar seus olhos revirados de tesão. Subir em cima de você, e começar no histerismo, os sons ofegantes que cresciam juntos com seus movimentos sobre meu corpo. Sei que você gostava de ficar cansado. Nossas pequenas mortes, nossa textura de pele misturada. De tirar todo qualquer resquício de sentido, tudo intenso mesmo e sem folego. Você sempre me dizendo para deixar rolar, mas não, meu coração era a terra onde ninguém habita. A pele que habitava uma única estrela solitária a milhões de galáxias que expandiam, atravessava cosmos e constelações. O seu sempre será o lobo pirata em busca de tesouros e terras para explorar. De porto a porto. O meu nem sabia velejar. Apenas menti para ele que pisei no seu chão, que ali era meu lugar, mas não, sabia no fundo que você iria. Mas sempre vou antes, cansei do desprezo.
Talvez você não me entenda um dia, talvez nem queira olhar para meu rosto e sinta que seja o dono da razão. Ao certo ninguém é vencedor nesse jogo do amor, ninguém prejudicou ninguém, fizemos o nosso melhor, tiramos a rainha e o peão do xadrez. As peças foram para caixinha e se tornaram iguais.
Jamais esquecerei essa ultima transa, sua ultima palavra, seu boa noite. Jamais esquecerei, pois era como se o tempo previsse que seria a ultima vez. Então deixo essa carta perto da travesseira como um elefante que se separa da manada porque sabe quando chega à morte. Essa carta define a morte de nós dois. A morte de uma coisa que nunca começou. Eu sempre tentei me afastar da manada, porque sabia que as coisas morriam aos poucos. Por tanto não me procure, foi eterno da maneira que ficou.
Com todo sentimento.
LP
Nosso reencontro: Um epitáfio de biscoitos chinês da sorte.
Perguntou se havia algum ressentimentimento.
Disse que jamais havia alguma.
Era como entrar numa gruta escura.
Gotas frias tornam-se Estalactites.
Assim como mentiras cristalizam-se em verdades.
A senhora noiva e o senhor tempo que resolveram se casar.
Ela fez uma lista dos amigos e de todas as pessoas que conhecia. Notou que algumas já estavam longe. Pensou no que cada um contribuiu para sua vida. Estava naquele exato momento reflexiva, pois essa seria a lista de seu casamento. Pensou em como era uma amiga relaxada e que perderá grandes pessoas, pois nem ao menos se preocupou em demostrar o quanto aquela pessoa era importante para ela. Sempre esquecia de ligar para as melhores amigas, era suficientemente egoísta, sabia disso, não precisava a mente avisar de vez em quando.
Então depois que passou a viver um romance, era natural o esquecimento da utilidade de cada pessoa. Passava horas pensando no futuro e na casa que comprou. Coisas de mulher como decoração e dieta. Pensava em cada projeto de filhos que a ocupava só de pensar.
Fechou os olhos cheios de lágrimas, caíra em si, naquele exato e único momento desejaria todos os amigos bem perto. Resolveu procurar o significado da palavra amizade no google e achou "é a aceitação de cada um como realmente ele é". Ficou ali, parada, imóvel sem saber o que sentia. Aquele sentimento era claro, profundo, suficientemente para suportar despedidas, palavras duras e realistas, divisão e tantas pedras e desgastes. O que sentia não era competição ou querer guardar uma caixa de relíquias. E pensou que respeitava muita gente daquela lista que talvez nem soubesse que era seu amigo. Então pensou que nunca foi à casa de alguns, nunca sentou com eles numa tarde e desvendou seus maiores temores. Alguns, sabia pelo gesto, pelo olhar. Outros, conhecia bem a residência tanto dela quanto a deles, cada resposta de cor preferida, do filme que poderia odiar, dos sabores no supermercado. Outros tantos bastavam à existência e um dia ter divido um momento.
Pensou que poucas jóias da lista valiam mais que cinquenta pessoas que estavam por perto. Poucos conheciam mais ela que ela mesma, mais que seus pais, mais que seu futuro marido. Alguns estavam lendo suas linhas nesse exato momento de algum lugar em que ela não poderia ir. Outros desejam estar com ela. E todos eles nem sabem e nem fazem ideia do quando são amados de uma maneira única, mesmo que ela os encontre e conte de forma estúpida e espontânea, eles nunca levariam a serio. A maioria acha que amor é só assistência e dedicação. Mas não quando se trata de amigos. Amizade transcende alguma coisa que não sei o nome. A gente nem precisa dizer mais nada, tudo é invisível e já basta.
Ela mergulhou em cada um no seu pensamento. Imaginou os lugares lindos que foi, as viagens, as comidas que provou, as sensações que teve e desejou no fundo da alma que eles estivem ali juntos. Sem mais, queria não apenas dividir as tristezas que são fáceis de compartilhar, mas não havia centelha de felicidade sem aquelas pessoas da lista. Era terrível imaginar todo tempo que viveu sem eles.
Mas sempre, sempre, o tempo gira, e o que resta é enviar cartas, a sensação de rasgar uma carta, saber que alguém que muito ama escreveu com as próprias mãos. Dedicou o tempo, mediu as palavras e pensou nas melhores. A sensação de esperar o tempo do carteiro, esse tempo que já não é um inimigo, um amigo que anda sempre em frente, diferente do tempo de querer tudo rápido e ao mesmo tempo, diferente do tempo que clica curti numa mensagem do facebook, medindo o tempo que postou no mural de alguma timeline a palavra “saudades” que se tornou comum. O tempo que mede qualquer distância, aqueles amigos tão longe, que continuam fortes, outros tão pertos que o tempo faz mais distante que as milhas, porque o tempo rasga tudo que foi mal costurado e tudo feito com a sensação de paciência é eterno de algum modo. Um tempo que chega tarde que nunca mais vai demorar.
É claro que o tempo invejoso como é, separa aqueles, eles casam, vão estudar, terão outros interesses. Parece ontem que jantamos juntos numa mesa e escutei suas reclamações, palpites, seus mistérios e sonhos. Mas não temos que lutar contra o tempo, ele sempre tá ali nos ensinando a seguir em frente sem parar, os ponteiros sempre girando, nunca indo para trás. Ela então percebeu que éramos apenas vítimas de querer trazer a tona coisas passadas e imagens que deveriam ser apagadas.
Ela um dia sentiu a sensação de abrir a caixa das correspondências e vê um cartão de natal como sua vó fazia quando era viva mesmo morando perto. Uma letra borrada de boas festas distante e próxima. A sensação de esperar por aquela noite e receber do papai Noel os presentes de boa menina. Não, o tempo jamais apagou. Amigos queridos que queria ter sempre ao lado, jamais havia abandonado, sentimentos um pouco possesivo são incompatíveis com a amizade. Mesmo não dividindo toda vida juntos, ela tinha a completa certeza que alguma consistência do tecido da alma guardava em suas mentes, pensamentos e sentimentos que os mantinham perto. Mais perto do que ela supunha. Mais perto, bem mais fundo sobre teias de aranhas.

2 comentários:
Você tá apaixonado, né?
então, nesse momento não, mas sempre "reciclo" algumas experiências e sentimentos antigos para deixar o texto com mais detalhes. Mas realmente seria bom se apaixonar *-*
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